N’Alguma Volta de Estrada

Osmar Antonio do Valle Ransolin

Ali na volta da estrada

Num domingo muito cedo

Vi no meio do arvoredo

Uma fêmea de onça parda

- Andava na retaguarda -

De alguma espécie de caça,

Campeando a boia escassa

De quem vive nos caminhos

Nesse mundo mesquinho

Dos que nasceram sem raça.

 

Andava num passo lento

Olfateando a imensidade,

Presa na orfandade

Dos que vivem sem alento,

Buscando na cor do vento

Qualquer sinal de esperança

De encontrar paz e bonança,

E algum refúgio intocado,

Onde o progresso é barrado

E o homem não alcança.

 

Pra quem já foi rainha

E senhora deste chão,

Hoje foge na escuridão

Da crueldade mesquinha,

Foge da espécie daninha

E da ambição insana,

A parda que foi soberana

Desses campos e invernadas

Vive na curva da estrada

Correndo da raça humana.

 

Por entre a selva plantada,

Vinha no passo, a baia,

Esperando uma tocaia,

Em cada curva da estrada,

De alguma bala atirada,

Por andar perto da cidade,

Por ambição ou crueldade,

Do homem que é vingativo,

E que encontra mil motivos,

Pra matar a diversidade.

 

Vinha na curva da estrada

Uma fêmea de leão-baio,

Vi passar de soslaio

Como quem segue apressada,

Andava buscando pousada

Em alguma paragem segura

Com a inocência das criaturas

A quem prometemos guarida,

E andam perdendo a vida

Nesses tempos de amargura.