MORTO... AGORA VIVO O PROCRITO

Luís Lopes de Souza

 

Sem dor, lamento ou porque...

morreu por chegar a hora.

Agora na paz perene

de um sono bueno e profundo

o pobre andejo dormia

sem ter magoas do mundo...

 

Livre...

Livre dos tombos da vida!

Livre das léguas dos anos

e amargas da existência...!

Tendo apenas por parceiro

um tostado malacara

viveu de estância em estância

sem ter raiz nem querência...

 

Por ter fama de errante

com calúnia maldizente

era sempre repudiado...

Restava encurtar distância

sem estar indo nem vindo

mal visto, vago e sem rumo...

 

... muitas vezes ranchos fartos

lhe negaram um fiambre...

... judiado pelos caminhos

acostumou a sofrer,

mas no vazio de ser nada

quantas vezes indagou

qual a razão de viver...?!

 

Não lhe alcançavam um mate...

não lhe cediam um pouso...

não lhe justavam pra lida...

não lhe estendiam a mão

na chagada ou na partida,

sem permisso pra falar

nem pra implorar um sorriso...

 

E era bueno... era bueno sim.,

quase sempre famulento

nunca comeu do alheio...

- Poncho puído de invernias...

- Bombacha a muito rota...

- Chapéu furado na copa...

- Arreios já remendados...

Desprovido, miserando

necessitado de tudo...

Arrastando a realidade

de sua fama de errante.

 

Nunca teve sonhos...

por fracassado e proscrito

não aprendeu a sonhar.

Amores por certo teve

mas perdeu-se por um só

e mesmo sendo vaqueano

nunca mais achou o rumo.

 

E os erros incompreendidos?

E o ferro em brasa no couro

por inocentes motivos...?

E o rubro sangue estanque

esvaído nos caminhos?!

E as tormentas interiores,

com estocadas de espinhos?!

 

Por isso agora livre...!

Sem mendigar um aceno..

Sem a changa pela bóia...

Sem andar só e sem razão.

 

Ninguém chorou pelo tal,

se o pobre era "mui solo"

quem choraria por ele...?

 

O tostado malacara

ficou por perto das casas

depois por perto da cruz...

Relinchando vez por outra

- Único choro talvez...!