OS CABELOS BRANCOS DO MEU PAI
Adão
Quevedo
Estes teus cabelos brancos
estas rugas no teu rosto,
o tempo deve ter posto
para irrigar o teu pranto...
Meu pai, eu te amo
tanto,
pois herdei estes teus traços,
estes teus olhos de aço
disfarçando a ternura
desta tua alma tão pura
na candura de um abraço.
Perdoa a lágrima rasa
que escorre, feito sereno,
pelo meu rosto moreno...
Pois cada gota que
vaza
é uma emoção que extravasa,
pois me pareço contigo!
Sou negra, eu te
bendigo...
Meu pai, foram teus conselhos
Que me serviram de
espelho
Pelos palcos onde eu
sigo...
Lembro a cada
instante
minha mão dentro da tua
na varanda, olhando a lua...
contando estrelas distantes,
como se fossem diamantes
no poncho azul do infinito
e o luar mais bonito
vinha derramando prata
pros grilos, em serenata,
entoarem o seu rito.
Foste tu quem me ensinaste
a ler o poema da vida...
a andar de cabeça erguida,
pois nunca comungaste
pelo chão onde pisaste
o mesmo rastro do errante...
Respeitar o semelhante,
nunca agredir com mentira,
pois a pedra que se atira
pode voltar logo adiante.
Palanque feito de
angico,
esteio rijo da casa...
marca de ferro em brasa,
pois suportaste solito
tudo que veio escrito
no teu destino de poeta,
escrevendo em linha reta
o que a vida trouxe torto,
sem
nunca negar conforto
nem desviar-se da meta.
Ah... Este teu
sorriso aberto,
feito o sol clareando o dia...
Recordo, com
nostalgia,
teu
carinho pelos netos,
pois me pareço contigo!
esta mão cheia de afetos
semeadora de harmonia,
tens o dom da poesia
e a tua voz embargada
tem timbre de madrugada
com claves de melodia.
Sou teu sangue, tua
raça,
ferida de preconceito...
mutilada em meus direitos
que a vida sangra e disfarça,
mas
nunca entrego de graça
a luta pela igualdade...
Além de toda maldade
daquele que discrimina...
Sou dona da minha
sina...
Sou negra, sou
liberdade!