MEMORIAL DE UM LENÇO

Osmar Antonio Valle Ransolin

 

Naquele lenço encarnado 

Que o velho atou no pescoço 

Há mil histórias que o moço 

Não imagina sequer... 

 

Há uma legenda de sonhos 

De campos floreados de estrelas 

De tropas boieiras antigas

Perdidas, no rodear das distâncias,

Que o tempo fez vulto e memória

E que habitam retratos na estância. 

 

Há uma leva de guerras 

- Lutas de irmão contra irmão –

De homens que deixaram seu sangue 

No altar cru - da revolução.

 

Em tempos antes do lenço,

E antes de haver Rio Grande

O vermelho se fez sinal 

Do sentimento pulsante,

Da república dos iguais

No antigo continente,

E veio fazer morada

No meio da nossa gente.

 

Há nessa cor selvagem, 

O índio Sepé que se ergue 

E carrega a cruz do Templário, 

Que enfrenta a tropa da Ibéria 

E tomba em defesa do pago,

Pra forjar a raça gaudéria. 

 

No pavilhão tricolor

Guarda a história de Bento, 

De Netto, Garibaldi e Anita, 

Dos ideais libertários que outrora 

Incensaram as portas dos Templos, 

Que fizeram dos Homens Justos 

Guerreiros de lança e espada, 

E a Pátria Gaúcha é forjada,

E no tinir de três marteladas.

 

Há o espetáculo funesto 

Da vingança dos maragatos, 

Da degola de mil vozes 

Às margens do Rio Negro... 

Do brado do inocente 

Ao grito do insensato, 

A cor que a rebeldia 

Tingiu em nossas bandeiras,

Alçando novas fronteiras

Muito além das sesmarias.

 

Do rubro sangue caudilho, 

Que lavou Anhatomirim, 

Que separou pais e filhos, 

Para nos reunir, no fim

Nessa vergonha eterna 

De carregar o nome, De Floriano,

Em nossa terra. 

 

Há uma centelha de sonhos 

Que se espalharam no ar,

Das quermesses nos povoados,

E dos domingos de carreira...

Há um tropel açodado, 

Mesclando pata e espora 

De um ginete da fronteira

Que se perdeu, campo afora. 

 

Há uma meia-espalda, 

De um duelo em campo aberto 

Trazendo o destino incerto 

Do fio que busca o corpo. 

 

- E à moda Cambará –

Há de lamber o oponente 

Pra sorver o sangue quente 

Que brota rubro e selvagem, 

Mesclando à cor, da roupagem 

Do imortal capitão, 

Lenço vermelho – à mão, 

E um punhal de entreposto 

Gravando a ferro a letra 

Que iria ficar meada 

Na curvatura do rosto. 

 

E o lenço se torna mito 

Vira herança sagrada, 

Em cada estória contada 

E pra cada verso escrito.

É o sinal de igualdade

-  Repetido no galpão –

Que nos dedos do peão

Vira’lma e identidade.

 

Te vejo hoje garboso 

No peito do Laçador! 

Recordando a toda gente 

-  Recordando mesmo a nós - 

A história dos ancestrais 

Dos avós de meus avós, 

Que precisou ser perdida 

Para que, lhe sentissem falta 

E então tivesse valor... 

 

Naquele lenço encarnado 

Que o velho atou no pescoço 

Há mil histórias que o moço 

Não imagina sequer... 

 

Há uma legenda de eras 

Que ele talvez desconheça, 

Mas que o velho há de contar

Pra que a história não pereça, 

E no futuro incerto

Quando o tempo tingir o moço,

Com as cores do mesmo afeto

Ele ate um nó no pescoço,

Na memória, de algum neto.