ROMANCE DA QUERO-MANA
Maximiliano Alves de Moraes
Prestativo igual a ele
Não havia outro!
Sempre pronto pra quarteadas:
Rodeio, alambre, tropedas,
E alguma pega de potro!
Quando o grito de ajutório
Batia à porta caiada
Do rancho humilde do posto;
Na esquina da quero-mana
Um mouro pisava a estrada,
Fosse janeiro ou agosto!
O lenço rubro ao pescoço
Talvez já fosse o sinal
De revolta adormecida,
Como essas repentinas
Que acometem as tropas
Ao tornarem-se incontidas!
No mais, uma garroneira,
Sempre de espinhos afiados.
Passeadeira de paletas,
Barrigueiras e virilhas.
No braço, o pala de seda,
Já de pontas esfiapadas,
Um surrador nas boladas
Das mais malevas tropilhas!
As eras foram tranqueando...
E agora, o antigo posto
Não serve mais à estância!
Estância, que por sinal,
Nem ela mesma é estância!
É "mar bonito" de planta,
Que afoga alma e garganta
De um posteiro em sua ânsia!
Nunca alguém lhe perguntou,
Talvez por isso não disse.
Que o sonho para a velhice
Era não deixar o posto.
Era viver no seu mundo,
Bom cavalo, rancho, cusco
E a benquerença dos outros!
Mas ele, que viveu solito,
Tendo por maior princípio
Servir a todos com gosto,
Sentiu -se dono da estrada,
Sentiu-se dono de nada,
Ao ser "varrido" do posto.
Esbarrou bem frente ao rancho
A roncadeira brilhosa
Com suas patas macias.
Desceu o doutor das terras,
Já com a firma da lei
Pintando a carta despejo,
Ante uma cerca caída!
Caiu também o ricaço,
Depois dos quatro balaços,
Já se apartando da vida!
O lenço rubro ao pescoço
Talvez já fosse um sinal
De revolta adormecida...
E mouro mais uma vez
Pisou a estrada com garbo.
Mas desta, já sob a rédea
De uma revolta acordada
Ao canto de um fado amargo!
Apeou frente ao bolicho,
O mesmo que nos domingos
Fazia correr o osso
E estendia o tirador.
Um sorriso debochado,
Desses que zombam por dentro.
E o trinta fala de novo Debruçando o zombador!
E os outros que lhe pularam,
Talvez fregueses da venda,
Por verem cena revolta.
Estes sentiram o aço
Da prateada carneadeira,
Um, sobre a carpeteira,
O outro, ao sair na porta!
E a estrada, mais uma vez,
Sente os cascos do buerana...
Agora, já com a imagem
De uma poeira comprida
Desenhando a quero-mana!
Basta a sorte ser contrária
Para o bom e servidor
Se tornar um desertor
De suas convicções!
Basta a morte imaginária
Dos sonhos que a alma tem
Pra tornar morto também
O melhor dos corações!
Nossa lei, nós a criamos,
E nesta lei dos humanos
Julgar é a pior condição!
Matar é crime medonho!
Mas e a chacina de sonhos,
Não merece punição?
Depois de posto e bolicho
A estrada contou delitos
Que não cabem em seus ramos.
Triste história do destino
De um posteiro proscrito
Que se derrama nos anos!
Quando alguém pede ajutório
Pras bandas da quero-mana,
Recende um ar de tristeza
Dos lados do velho posto.
Mas o mundo é bem assim
A morte é da vida humana
Pela lei da natureza,
Seja janeiro ou agosto!
Não se sabe o paradeiro
Do posteiro malfeitor.
Se ainda anda nas cruzes
Do velho mouro garboso
Ou se na cruz de algum pouso
Boleou a perna da vida.
Por revolta adormecida
Como essas repentinas
Que acometem as tropas
Ao tornarem-se incontidas!