HISTÓRIA EM VERSO E REVERSO
Jeferson Valente
No rancho à beira da estrada
Que vai pra o Passo do Tigre,
O ressoar dos clarins
É muito mais que um chamado,
É uma convocação.
As notícias de revolta
Que cruzam o corredor
Despertam o guerreiro
Nessa pacífica alma.
A guerra carrega monstros no
seu ventre.
A fúria dos combates
Devora a todos.
A ganância de poucos
Gera a fúria de muitos.
Há menos de trinta anos
Os seus feitos na campanha
Lhe deram a reputação
Que ainda o precedia:
- Degolador! -
Pois passara a ferro branco
Trezentos homens valentes
Que lhe foram prisioneiros.
Mas foram mesmo trezentos?
Foi mesmo ele o executor?
Ou por ser negro entre os
brancos,
Alçado a alta patente,
Foi objeto de intriga
Pra os que achavam que a pele
Tem cor certa pra os heróis?
Se a facção derrotada
Foi a sua,
E a história é contada
Por aqueles que venceram,
Bandidos são os vencidos.
E ninguém melhor que um negro
Pra ser do mal a estampa.
A execução ritual
Perpassa a história do mundo.
Forcas, machados e guilhotinas
Tinham carrascos sem rosto,
Sob a sombra do capuz.
Porém, a face do algoz,
Era conhecida de todos
Na gravata colorada.
E foram muitas nessa guerra.
Cesário, Firmino,
Tantos Joões
e Franciscos
Passaram no ferro branco
O inimigo derrotado.
Mas só um nome é lembrado.
Falam do prisioneiro,
Pedroso,
Sem falarem dos seus crimes
Que incluíam um velho
Degolado na defesa
De sua nora e das netas
Abusadas pela tropa.
Nem do filho, marido e pai
Na busca dos agressores.
Somente contam que o negro
Degolou o prisioneiro
E mais centenas com ele,
Num ritual de vingança.
Não contam que, finda a
guerra,
Voltou pro
rancho
E pra lida de campeiro.
Criou cavalos e filhos.
Engordou gado alheio.
Encheu guaiacas de outros.
Mas tinha marca no nome
Gravada com ferro e sangue.
Quando a notícia da luta
O encontrou chimarreando,
Tomou a lança na mão,
Alçou a perna no flete
E se foi rumo às peleias.
O que não sabia o velho
É que a guerra mudara.
Trens pariam soldados.
Jipes e caminhões galopavam
na campanha.
E o beijo quente da morte
Estalava nas metralhas.
Homens, cavalos e lanças
Partiram para as batalhas.
Esquadrões de Dons Quixotes
Lutando contra moinhos
Que cuspiam chumbo e fogo.
Uma morte cobra outra
Em represália à primeira.
E esta, por sua vez,
Exige mais uma,
Num ciclo interminável
De revanches e desforras...
No Passo da Serraria
Estampidos de emboscada
Zuniram por sobre as águas.
Adão Latorre
foi morto
Junto dos seus companheiros.
Mas seu nome sobrevive
Nas alcunhas que o precedem:
Degolador! Assassino!
Mas foram mesmo trezentos?
Foi mesmo ele o executor?
Numa guerra fratricida,
Dentre tantos assassinos,
Ninguém melhor que um negro
Pra ser do mal a bandeira.