DIÁLOGO ABARBARADO ENTRE O NATIVO E O INVASOR
Rodrigo Canani
Medeiros
-Eu sou o rei das coxilhas
nos altiplanos do sul,
sou sentinela perene
que se levanta altaneira
nos campos deste hemisfério,
sou o guardião das invernias,
canhadas e sesmarias
do Brasil meridional.
-Mas, me sinto sufocado
neste conífero mar
que inundou minhas coxilhas...
-Já não avisto o umbu
no caponete da frente,
já nem enxergo direito
a viração que se ergue
do fundo dos itaimbés.
-Eu também tenho
querência!
Venho dos nortes da orbe,
também me criei altivo
na brancura de invernos,
ainda mais rigorosos.
-Não sou praga, não sou
peste,
tenho cerne, tenho seiva,
sou, como tu: natureza.
-Não vim prá cá por
vontade,
nem por obra do arquiteto,
fui chegando de mansinho
pelas mãos dos governantes
prá repovoar horizontes,
prá recobrir cicatrizes
nas clareiras e picadas
que a tua ausência deixou.
-Sob o meu manto há flores,
viceja a grama nativa,
e amoras, e guabijus
tingem de preto meus pés.
-Até o meu nome é imponente:
Araucária! Pinheiro!
O teu é nome estrangeiro,
Pinus Elliottii,
Taeda...
-Tenho parceiros de fato!
Que vivem junto comigo,
a curicaca, a tiriva,
a gralha, o tatu mulita,
o papagaio charão.
-E tu? Nórdico soberano,
quem habita o teu entorno,
além dos ratos e vespas?
-Não divido meu espaço,
não me agrada compartir,
meus espinhos se encarregam
de afastar a vizinhança,
E aqui no sul, realmente,
me abandonaram os bichos,
entretanto, companheiro,
tem um tipo que me adora...
-O animal que é meu amigo
usa bombacha de favo
e anda de caminhonete...
-Eu sou o ouro plantado
nesta era de avareza.
-Faço cantar serra fita!
E engordo as algibeiras
dos senhores e peões.
-Meu pinhão foi o sustento
prá gerações de gaúchos,
desde o caágua ancestral
ao imigrante de ontem.
A guavirova
serrana,
a goiabeira do mato,
o ipê e o cambará
são fraternos comensais.
-Do meu cerne centenário
brotaram casas nas vilas,
ainda firmes, de pé.
-Dei vida pros instrumentos,
mobiliei apartamentos,
fui mangueira, fui galpão.
-E tua carne o que oferece?
Alimento pros cupins?
-Não me julgues deste
jeito!
De qualquer forma,
parceiro,
coxilhas não haveria...
-O campo que tanto amas
teria outros algozes,
travestidos de lavouras,
de engendres e mercâncias,
pelas mãos do teu patrão.
-No fundo, meu
companheiro,
dou minha seiva por ti,
não fosse a minha presença
aqui não mais estarias,
tinhas virado serragem,
lenha, cavaco, carvão.
-Te tornariam papel!
E escora de construção.
-Teu
grito tem fundamento,
mas não encerra a questão.
O
certo é que este patrão,
se
não respeitar limites,
vai se tornar habitante
de
um mundo sem tradição,
sem coxilhas, sem pinheiros,
sem pátria, sem céu, sem chão.
Capitão do seu destino!
Mas um frágil cidadão...
Há que espalhar sementes
de equilíbrio e comunhão,
há que transformar as mentes
dos homens deste rincão,
prá o convívio em harmonia
dos gaúchos que virão!