Causos
Jeferson Valente
São Pedro está lavando a
casa!
A água escorre pelas frestas
E chove sobre a terra,
Encharcando os campos.
Ah! Os campos...
Sagrado chão
Onde repousam combates
E tauras.
Adubo para os ideais
Que florescem neste
E deste solo.
Morada da M´boitatá silente,
A buscar vida nos olhos
Que se abriram pra luz.
Vez em quando
A luz do candeeiro
Escapa por um vão
Relampejando no infinito.
E as mesas arrastadas
Trovejam, fazendo tremer o
céu!
O céu...
Teto de estrelas,
De onde o lampião lunar
Clareia o gado embalado
Por tantas cantigas de
ronda...
Inconstantes pirilampos
São fagulhas,
Que se escaparam do pavio.
Pavio que se consome inteiro
Ante a imagem reluzente
Do sol-farol que nos mostra
Todas as cores do dia.
Que nos mostra a quincha azul,
Onde brancas nuvens
Bordam a cada momento
Cavalos,
Castelos,
Batalhas de sonho
Do meu tempo de guri!
Por vezes, as tropilhas
De alvos pingos tordilhos
Disparam no potreiro celeste,
Dando lugar a lobunos
Com relinchos de trovão.
Sob o concerto da chuva
Lenhos pariam canzis,
Pelegos choravam estendidos,
Couros brutos se mostravam
dóceis.
Em dias de chuva,
Laços brotavam dos dedos!
Dedos que mal suportam
A cuia, onde o mate esfria...
Neste fim de tarde,
Em que sua alma vagueia
Pelos confins da lembrança.
Eu...
Sirvo o amargo.
E escuto...
Talvez invejando o velho.
Vagos causos revividos,
De carreiras,
De carpetas,
Peleias e assombração.
Lá na cancha dos Garcia
Num domingo de janeiro,
Assustou-se o povo inteiro
Com a rodada da tordilha.
Quase o índio se enrodilha,
Mas era taura o peão.
No aperto da situação
Foi igual uma centelha,
Pois saiu pisando orelha
De rédea firme na mão.
Histórias que explicam a chuva,
A seca,
A vida e a morte.
Não foram bancos de escola
Que lhe explicaram o mundo.
Tampouco as enciclopédias
Que ele sequer sabe ler.
Mas suas histórias têm vida.
Seus personagens encanto.
E as suas teorias, baseadas
na experiência
De outras tantas gerações,
Não merecem contestações
Daqueles que ele admira,
Pois explicam com ciência
Todas as coisas do mundo.
Segue a chuva...
Segue o mate...
Seguem as histórias...
Segue o encantamento!
Olho as crianças na volta
E me pergunto:
E quanto a mim,
Cria de tauras,
Herdeiro desse tempo,
Moldado num mundo novo,
Que causos
irei contar?