QUANDO UM DOMINA O OUTRO

 Maximiliano Alves de Moraes

 


 

João Quintino era veneno

Na espora,

Na faca,

E no laço.

Tinha no corpo remendos

De adaga,

Golpes

E balaços.

 

João Quintino era pequeno

Em porte,

Posses

E anseios.

Mas tinha fama de grande

Na coragem,

Na alma

E nos arreios...

 

O potro que se arrastasse

Se cortava nas chilenas,

Se enredava na soiteira.

O gavião que refugasse

Num upa se acolherava

Com a argola da barrigueira.

 

Nalgumas farras no povo

Andou metido em furdunço

E o pecado foi buscar.

Manejou o ferro branco,

Porque o instinto da alma

Faz o corpo forcejar!

 

Na precisão, era um gato,

De boléu, saia liso.

Nunca ficou enredado!

E na hora do perigo

Até estampava um sorriso

No semblante debochado!

 

 

João Quintino era veneno

Destilado pela vida!

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A florida primavera

Dava ô de casa

Na estância do Arvoredo.

O pasto bueno e a macega

Ganhavam viço

Por coxilhas e varzedos.

 

A estância do Arvoredo,

Cada invernada, uma estância...

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Quando a luz do “criador”

Esquenta os campos do sul

Os que hibernam na terra

Vão passear ao céu azul!

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João Quintino galopeava

Um bagual tordilho negro.

Sempre domando solito,

Bota de cano virado,

Bombachita arremangada,

Carrapicho nos pelegos!

 

Já era o quinto galope,

Tirou pro campo do meio.

Apeou pra “puxa” de baixo,

Pra “aperta” os “arreio”.

 

No calor da lida bruta

Não se cuida os pequenos,

Era uma briga do potro

Com João Quintino veneno.

 

Mas na macega viçosa

Dormia o cruel destino

Que deu um bote certeiro

Na perna de João Quintino.

 

Dois olhos rubros choraram

Na carne do domador,

Que sentiu um frio no miolo

Sem ainda sentir dor.

 

A cruzeira se resvalava

Sobre a grama enserenada...

Quintino, uma mão no cabresto

E outra na perna picada...

E o potro tordilho negro,

Uma esperança encilhada...

 

Alçou a perna chorosa,

Montou o potro tordilho,

Tapeou no rumo da estância,

Tapeou no rumo do auxílio.

 

Mas o veneno é veneno

Na cancha reta das veias,

Muito pior que dor de adaga

No calor de uma peleia!

 

Olhar mesclando de negro,

Surgia dor, alucinação.

Já ia um bagual tordilho

Tapeado sem direção.

 

E o pelo tordilho negro

Dos olhos de João Quintino

Foi se tornando mais negro

E foi perdendo o tordilho...

E foi perdendo o tordilho...

Ainda sobre os pelegos,

O forro do bom lombilho.

 

E João Quintino veneno

Sentiu chegar sua hora,

Não resistiu ao veneno

Que castigara seu corpo

Como espinhos de uma espora.

 

Caiu do lombo do potro

Antes de chegar à estância.

A estância do Arvoredo,

Cada invernada, uma estância...

 

Foi encontrado o veneno,

Sem vida, perto das casas.

Na perna, dois olhos rubros,

Na face, dois olhos negros

Com as pupilas vidradas.

 

No pasto, junto do corpo,

Sinais dos cascos do potro,

Que se negara no instante

Do encontro de dois venenos,

Quando um domina o outro.

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Foi uma manhã dessas floridas,

Quando a luz do “criador”

Esquenta os campos do sul

E os que hibernam na terra

Vão passear ao céu azul!

 

João Quintino era veneno

Destilado pela vida!