MEU PAI

Jadir Oliveira

 

Meu Pai tem alma de campo, de rio, de mato e lagoa,

é um pouco inteiro de um todo unindo uma só pessoa,

é sol, é frio, é mormaço, é outono, primavera,

é cheiro doce de terra numa tarde de garoa.

 

Meu Pai é um palanque erguido agüentando os sofrenaços,

meu Pai tem marcas no couro de tombos e manotaços,

é a doçura das cantigas sempre que a guitarra amiga

se aquerencia em seus braços...

mas também é tempestade que leva tudo por diante

quando a razão só se mostra no fio sem alma do aço.

 

Meu Pai tem sábios conselhos e um jeito de ver a vida

que transmite ensinamentos que me toca refletir...

Faz parecer tão pequenos alguns monstros que por vezes

se acampam em nossa mente

para desviar a gente do caminho a prosseguir.

 

Meu Pai me disse que a vida nada mais é que uma viagem

e que precisa coragem para levar nossa cruz,

pois a estrada muitas vezes,

tem esquinas traiçoeiras pra confundir nosso rumo...

tem caminhantes sombrios de alma escura e maleva,

mas que não importa a treva pra quem afirma seu passo,

pois mesmo no breu da noite há sempre um raio de luz.

 

Me ensinou olhar nos olhos sempre que falar com alguém,

jamais levantar a voz nem desdenhar de ninguém,

sempre que tiver sobrando repartir com quem não tem,

pois a solidariedade nada mais é na verdade que uma semente do bem.

 

O semblante do meu Pai é de Homem simples e rude,

mas quem conhece as verdades que habitam suas atitudes,

sabe que alma do velho é doce qual a pitanga,

e traz murmúrio de sanga e uma paciência de açude.

 

Parece dessas pessoas de alma grande e antiga,

que entende as coisas do mundo e não se abala com nada,

tem frescor de madrugadas na ternura das cantigas...

Me ensinou que um caminhante respeita o chão onde anda

e que o caminho se agranda no sem fim dessa jornada...

me ensinou que até o mais taura,

é capaz de sentir cansaço pela distancia que veio

e quando cansar não é feio sentar-se a beira da estrada.

 

Sabedoria, humildade, paciência, perseverança,

são virtudes verdadeiras que meu velho me mostrou...

me disse também pra nunca eu desistir dos meus sonhos,

pois o homem que não sonha tem a existência tristonha

e não encontra motivos para buscar novos rumos,

nem se da conta das chances que a vida lhe ofertou.

 

Meu Pai me disse,

Meu filho, quando te tornares pai,

lembre sempre que um exemplo vale mais que mil sermões,

porque um filho sempre é o melhor pedaço da gente

e vai seguir certamente teus passos e tuas ações.

 

...Não se encontra mais aqui...

Já seguiu o seu caminho...

Mas vejo quanto carinho existe neste legado que herdei um dia de ti

e por mais que o tempo passe sinto que não ficam velhas

tão pouco perdem o sentido as lições e as verdades que contigo eu aprendi.

 

Meu Pai tem alma de campo, de rio, de mato e lagoa,

te sinto sempre presente cada vez que a primavera

traz cheiro doce de terra numa tarde de garoa...

 

...E fico olhando meus filhos...

...e uma lágrima se forma se desprendendo do olhar...

Pois se hoje mostro a eles com atos e ensinamentos

como se forja um Gaúcho de respeito e honradez,

é porque botei tenência nos teus conselhos meu velho

e foi esse teu exemplo que um dia homem me fez.

 

O tempo segue rodando...

e assim com tu te fostes em três ou quatro volteadas não me encontro mais aqui...

Mas hei de partir feliz...

Porque carrego a certeza que meus filhos vida a fora

vão bater forte no peito quando falarem de mim,

vão passar para os meus netos valores que vem de longe

e sentir o mesmo orgulho,

meu Pai,

que eu sinto de ti.