INVENTÁRIO
DA SAUDADE
Guilherme Collares
Rol de bens a inventariar:
20 quadras de campo de baixa qualidade;
Casa, galpão e mangueiras muito antigos
e mal conservados;
850 reses de gado geral;
22 cavalos de serviço;
60 capões de consumo;
4 cachorros ovelheiros.
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E a memória de seis sofridas gerações...
Com quem ficará?
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- Com quem ficará?
Todo o campo se divide,
casa, mangueira e galpão...
O gado é “ponta cortada”...
E o bem maior, não é nada
pra o conceito do inventário.
O bem maior são as almas
e as memórias já passadas,
que não conhecem partilhas
e que vivem encravadas
e perdidas pelas sombras,
pelos cantos dos galpões...
E nas sangas e nas grotas
e nas curvas das picadas...
E assobiando pelos ventos
que cortam as invernadas
compartindo solidões...
E essas almas esquecidas
não reconhecem cartórios,
nem os timbres, nem os selos
que conferem propriedade...
E, por certo, nem os zelos
que a ganância distribui...
As almas, por certo, entendem
quem sente e vê seu passado
não apenas como um bem,
que se vende ou é comprado...
Mas sim como um sonho herdado
que nem se estima valor.
O que pra uns é mercado
que engorda os bois e as contas,
pra outros é casa e vida
e, por certo, guarda a lida,
as esperanças e os sonhos
das passadas gerações.
O que pra uns são aguadas
que dão de beber ao gado,
pra outros é porto e banho
nas histórias dos verões.
E as várzeas desmerecidas
pelas mortes das enchentes,
são a própria alma dos campos
que revive o que matou...
O que pra muitos é ruína
de um fortim que não tem luxo,
que não comporta confortos
nem móveis sofisticados,
pra outros é casa e história
que contam as tantas vidas
que por ali já cruzaram...
A voz das avós, guardada,
no ranger das dobradiças
das muitas portas antigas...
Que o formal de uma partilha
sequer atribui valor...
Nenhum juiz ou cartório
pode melhor entender
o que as almas das estâncias
querem e podem contar:
De forno e pão das avós...
De laço e doma dos pais...
Dos apartes ancestrais
e tropas no Camaquã...
Dos bisavôs boleadores
caçando boiada alçada
das gadarias baguais...
Por certo as vidas passadas
são veladas testemunhas
que bem poucos ouvirão...
E nenhum advogado
pedirá suas palavras
ou mesmo seus bons conselhos
na partilha que há de vir...
Quem sabe, um dia, a tristeza
inventarie os recuerdos
no cartório das saudades
e a justiça e a verdade
venham meter o focinho
no buçal da realidade...
E que as almas das estâncias
bradem contra as injustiças
e as misérias ambiciosas
que profanam sem pesar...
E, quem sabe, quando a vida
abandonar as retinas
dos muitos olhos sofridos
que perderam seu lugar,
os juízes do universo
promulguem votos sublimes,
exilando suas almas
a sempre errar e vagar...
E seremos a saudade
e as vozes das dobradiças...
E seremos a memória
e o calor de nosso lar...
Seremos o que não cabe
no formal de uma partilha...
Seremos alma de estância:
- Outros poderão contar!...